O SILÊNCIO DE UM AGRO

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agricultura familiarEstamos diante de uma crise sanitária sem precedentes. No país, mais de mil mortos por dia, provavelmente em escala subnotificada. Não bastasse o medo do vírus, outro medo nos assombra: o da fome e miséria. O desemprego e a precarização do trabalho colocam a população frente a esta dura realidade e nos chama à responsabilidade para refletir e até resolver a questão.

 

Milhões de desempregados de um lado, muitos com a miséria à espreita. Agricultores familiares de outro, dispostos a produzir o alimento que vai na sua e em outras mesas. Deve-se eleger as prioridades. A agricultura familiar corresponde a mais de 80% dos estabelecimentos rurais no Brasil, mas detém menos de 25% das terras. A desconcentração deste bem natural, finito e imprescindível à reprodução de todos os seres não ocorreu por essas bandas. Há menos de um milhão de famílias assentadas de Reforma Agrária, cinco milhões de brasileiros grosso modo, o que significa que menos de 3% da população teve acesso à terra, por meio desta política pública.

 

Brasil, dimensão continental. Solo, água, clima que propiciaria a qualquer País gabar-se da inexistência de cidadãos – inclusive os engenheiros e outros profissionais qualificados –, famintos. Mas há inúmeros acampados nas beiras das estradas e outros tantos nas bordas das cidades formando uma legião de sem direitos: sem terra, sem moradia, sem trabalho e sem alimentação. Como explicar!? Num País que se gaba de ser "agro", como o Brasil, e com sua extensão territorial, o mínimo aceitável seria que não houvesse uma só pessoa em situação de vulnerabilidade alimentar.

 

Como defender a regularização e titulação das áreas públicas da Amazônia para plantio de soja e criação de gado, se isso não é garantia de carne no prato!? Querem doar áreas equivalentes a seis milhões de campos de futebol utilizando fotos de satélites, com resolução insuficiente para detectar suor na testa e mãos calejadas. Uma área equivalente ao estado do Rio de Janeiro e Sergipe juntos – hoje sob o domínio de toda a população brasileira. Conta rasa, se dividíssemos esta área a ser doada com todas as famílias brasileiras sem-terra, doaríamos 1700 metros quadrados para cada uma delas (cerca de 30 vezes maior do que um barracão médio na favela) por família. Enquanto isso nas cidades, mais especialmente nas suas bordas e morros, vive-se literalmente espremido – tudo isso num país de dimensão continental. Baita contradição.

 

Voltando aos campos de futebol, à agricultura, ao direito ao trabalho, renda e alimentação: há saída neste momento delicado!? Sim, há!!. E passa necessariamente pela Reforma Agrária e fortalecimento da agricultura familiar. Passa pelo direito que o povo brasileiro tem de optar pelo seu lugar (se campo ou cidade). Passa pelo direito à prioridade de assento nas terras públicas se você trabalha e/ou vive da terra. Passa pelo direito à desapropriação das terras que não cumprem sua função social (e na ampliação do conceito de função social, num contexto de Pandemia). Passa pelo direito de retomar as escolas do campo como ambiente que promove o desenvolvimento e garante que filhos, netos e bisnetos dos agricultores e agricultoras permaneçam no campo – se assim desejarem.

 

Nós brasileiros somos todos retirantes, somos fruto da exclusão do campo e lá temos raízes – em alguns de nós as raízes são tenras, se adaptaram ao asfalto quente, mas em outros, as raízes são profundas e ainda guardam sementes. E isto independe da idade, porque as sementes têm memória, bastando serem lançadas ao chão com um bocado de cuidado pra se reverterem em frutos em abundância, na mesa de tantos desalentados.

 

O agro dos latifúndios está silente, quieto diante da crise sanitária, social e econômica pela qual passa o país, porque não tem saídas sólidas para oferecer – a não ser o discurso de ser um peso na balança comercial, que desconsidera o contrapeso das isenções recebidas e das perdas ambientais e de saúde produzidas. O agro dos minérios é sangue escorridos pelas feridas abertas no chão. O Agro que utiliza 70% da água doce pra irrigação (o que isso representa diante das necessidades essenciais postas agora, como por exemplo lavar constantemente as mãos?) Este é o agro detentor de mais de 75% das terras no Brasil, terras sem gente, sem alimento, sem vida. Enquanto nas bordas dos campos e das cidades tanta gente, sem terra, sem alimento, sem trabalho e moradia. A Reforma Agrária está viva na Constituição Federal, mas foi declarada morta por um simples Memorando. Foram encontradas respostas para minimizar os impactos da Pandemia no bolso da moribunda. Quem terá a ousadia de ressuscitá-la!?

 

Diretoria Nacional da Cnasi-AN

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